Café pra Dois

coffeeEla abre a porta do banheiro,

uma velha cortina de plástico, encardida e desbotada denuncia a ausência de estrelas da Pensão que se diz Hotel.

No quarto, duas camas de solteiro;

Colchas estampadas como tampas  de malas antigas.

Nenhum empecilho prá arte de amantear.

Barulho de madeira arrastando;

Como mágica: uma cama de casal.

Um edredom que se estende;

Anúncio de uma noite que virá.

Corpos que se enlaçam;

Lençóis revirados.

Noite que se vai.

A claridade invade a fresta da janela;

Hora de levantar.

Um bom banho;

Desodorante e pasta de dentes.

A chave que gira no ferrolho antigo;

Mãos que se entrelaçam em direção à sala.

Grande e comprida mesa de café;

Bules, xícaras, açucareiros.

Dona Socorro tasca o grito:

Bena, prá dois!

E a sorridente Bena surge como um polvo;

Pães,  bolos, mamão e ata.

Barulho de colheres e louças;

Bocas que mastigam silenciosas.

Olhares cúmplices;

Quanta intimidade!

E o dia corre solto;

Hora de trabalhar!

O sorriso confirma: mais um encontro;

De quantos?

Lembrança boa, inesquecível;

De amantes num despertar.

(por Rosânia Bastos)