ASSIM SEJA!

mulher livre

Domingo, 16 de Fevereiro

VOCÊ É LIVRE!

Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.   Jesus Cristo

V ocê é livre para seguir e obedecer as demandas do seu ego. Mas você também é livre para rejeitar e renunciar a essas demandas. Você é livre para imaginar e impor toda sorte de limitações sobre sua vida, suas ações e sobre tudo que você pode vir a ser. Mas você também é livre para ir muito além dessas limitações.
Você é livre para pensar positivamente, para trazer à sua mente pensamentos que lhe encoragem mesmo diante de situações consideradas sem solução. Você é livre para agir de tal maneira que venha trazer valores e significado a sua vida e ao seu mundo. Você é livre para tomar problemas difíceis e – pela graça de Deus – transformá-los em maravilhosas oportunidades.
Você é livre para enfrentar tudo que vier à sua frente e direciona-lo para um propósito positivo. Você é livre para fracassar milhares de vezes, mas também é livre para se levantar e alcançar um incrível sucesso. Você é livre para buscar valores em tudo que você experimentar nesta vida. Lembre-se de que você é sempre livre para viver, para amar, para aprender e para trazer as melhores possibilidades para a sua vida e para a vida de muitos ao seu redor.

Nélio DaSilva

Para Meditação:

Porque não é do seu agrado trazer aflição e tristeza aos filhos dos homens… O Senhor é bom para com aqueles cuja esperança está nele,
 para com aqueles que o buscam.  Lamentações 3:25,33

Anúncios

DISPENSA IMAGENS ou TAGS……

Pedro do Coutto

No espaço que ocupa brilhantemente às quartas-feiras em O Globo, nesta última o antropólogo Roberto da Matta coloca em pauta a existência de Deus e lembra ter se dirigido a ele para encontrar seu filho, Renato, que perdeu a trilha numa excursão. O renomado professor e intelectual foi atendido. Mas ficou em dúvida para as etapas seqüentes de sua vida.

Quase todos alimentam alguma dúvida. No fundo, a razão lógica também. Pois se nos momentos de aflição, ansiedade e dúvida, nós o evocamos, logo vive na consciência humana. Caso contrário, estaríamos sendo hipócritas ou idiotas nos apelos e orações. Nos instantes de desespero, principalmente.

Pedimos seu apoio e depois o negamos? Não podemos assumir diante dele o comportamento de Iago de Shakespeare em relação a Otelo, seu benfeitor. Deus está vivo. Não importa que seja o Deus humanizado de Michelângelo na Capela Sistina, ou o Deus, síntese do absoluto de Einstein. Nem o de Chaplin, que a ele roga pelo menos em duas de suas obras notáveis. No Grande Ditador, maior filme político de todos os tempos. Em Luzes da Ribalta, quando implora para que a bailarina interpretada por Claire Bloom exerça sua arte no momento de entrar no palco. Atrás da cortina Chaplin se ajoelha e diz : ”Seja você quem for, humano ou divino, ajude-a a cumprir seu destino”.

Houve fases do passado em que até era elegante e aristocrático chocar pela excentricidade: pessoas negam a existência de Deus só para contrariar. Essa época passou. A batida wildeana, o lance agressivo e irônico de salão, já era. Não surpreende mais ninguém. O desfecho final de O Retrato de Dorian Grey, quando o personagem se destrói envelhecendo seu auto-retrato, é de inspiração nitidamente mística, com um ser humano tentando se eternizar na Terra, através de sua imagem. Uma tentativa de autodeificação.

Mas falei no Deus de Michelângelo, um Deus comandando o universo do alto, figura humana de poder e seriedade. Muito bem. Falei no Deus de Chaplin. Vou falar no de Albert Einstein, mas a lista não acaba neste ponto. Para Einstein, na relatividade que ele lançou no início do século 20, fornecendo nova visão tanto à Matemática e à Física quanto à existência humana, Deus é o absoluto. Tudo mais, portanto, é relativo. Chegou à conclusão porque (relativamente) para que haja relatividade é indispensável haver o absoluto.

Segundo o gênio que nasceu em 1880 e morreu em 1955, para Deus, por isso mesmo, não pode existir passado, presente ou futuro. Ele é Deus. E se o tempo muda com o passar das décadas – agora é minha opinião – Deus muda com ele. Já que o mundo que ele criou (ou cria?) hoje, claramente não é o de ontem.

O universo possui mais de 5 millhões de anos. A era cristã tem 1978, a partir do desfecho da cruz em Jerusalém. Os séculos são diferentes entre si. Mas deve-se incluir, no rol das dúvidas e das mudanças, as visões de Louis Buñuel e de Fellini.

Buñuel na primeira fase de sua carreira, dirigiu “Lage D’or”, de 1933, fortemente anti-religioso e até anticristão. Era absolutamente ateu e, sobretudo, anticlerical. Confundiu catolicismo com cristianismo. Já no final, com o “Anjo Exterminador”, passa a aceitar o sobrenatural para o qual não encontra explicação. No “Estranho Caminho de Santiago” (de Compostela) o espanhol antifranquista despedia-se buscando estender a mão e encontrar-se com Deus. Não importa se no Céu ou na Terra.

Finalmente, para Fellini, a vida oscilava sobre linhas de dúvidas. Ultrapassou o obstáculo em “Oito e Meio”, deixando um cardeal, na sauna, dar a sua versão de Deus. Faltou – dirão os leitores – Dostoievsky. Claro. Nos “Irmãos Karamazov”, define-se na frase famosa: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Como nem tudo é permitido, está exposta sua crença, mesmo indiretamente. Na verdade – acrescento, como comecei – Deus vive em todos nós, está em todos nós. Na alma, na mente, no coração.

O URUBU E A VITÓRIA RÉGIA

Diálogo torpe entre um urubu e uma vitória régia. Desprezado o preconceito embutido no diálogo, digo, como disse Fernando Pessoa: que primor!

Image
O Urubu e a Vitória Régia

Pobre urubu certo dia
foi justamente pousar
sobre uma relva, onde havia
reinando, com todo o esplendor,
a linda vitória-régia
vestida de nívea cor

Bendita sejas, vitória,
rainha de graças mil
eu te aclamo for das flores do Brasil.

Ia ficar sem resposta a saudação
mas ao fim a vitória-régia
voltou-se e falou assim:

Olha lá como me falas,
oh atrevido Urubu,
ante a minha majestade
oh, infeliz, quem és tu?

Quem és tu que não te curvas
negro da cor de retrós,
pesa melhor a distância
imensa que há entre nós

O urubu caiu das nuvens
tão espantado ficou
só depois de haver passado
longo tempo assim falou:

Que nasceste cor da neve,
que és rainha sei bem
mas não te esqueças, vaidosa
que eu nasci branco também

Não te esqueças que embora
eu viva de léu em léu
Tu vives presa no lodo
E eu vivo livre no céu’.

Marina Ilhabela

Marina Ilhabela

De novo a voz do vento. Só depois de muitos anos vim a entender a estratégia desses ventos zombeteiros, que insistem em soprar-me aos ouvidos o nome do paraíso. A tática vencedora tem sido sempre a mais simples: me entrego longo tempo a degustá-lo na memória, saboreando tranquilo cada sílaba, como os vinhos que aprendi a apreciar sob travos de melancolia: I-lha-be-la… Suspiro fundo, sorrio; às vezes basta. Coisa dos anos, talvez. No caleidoscópio das lembranças, todo caquinho vai se mostrando furta-cor ao olho atento. Que busca a luz para entrever o mosaico dali dentro.

Donde moro não avisto o sol nascendo. É pena: há madrugadas que me arrancam das cobertas qual zelosas, porém rudes, enfermeiras. Não que as queira mal. Explico. Tranco-me na sacada e acendo o velho cachimbo. A brasinha me encanta enquanto inflama, e o abraço da fumaça não deixa de ter lá seu aconchego. A luz da cidade mata estrelas; contento-me de tê-las um tantinho mais perto. Espraio o olhar apenas, em procura dalguma ainda visível. No mais só fecho os olhos, trago fundo, aliso à ponta dos dedos a palma da mão vazia. Quando a claridade sem pudor desnuda a noite, não raro me pilho enxugando a lágrima inconformada, não satisfeita com só me alfinetar por dentro os olhos. Houve dias em que tive de agir rápido, quando todos despertavam; a fumaça também ajuda. Minha esposa – amor-emenda – tem sabido não fazer mais tanto caso. É o tempo: os caquinhos se vão lapidando. Ilhabela…

O que um adolescente caramujo poderia responder se convidado por dois primos para um fim de semana em Ilhabela? Desconversei, mas fui. Naquele abafado dezembro, acampamos na estupenda Castelhanos, que me destrambelhou a pulsação em seus azuis. Mal caiu a noite, nos vimos sem querer em um luau: acendi uma fogueira e sentei-me de frente para o mar; adoro admirá-los. Deliciava-me a dança das estrelas, mais do que cantar e beber da aguardente vagabunda que o primo oferecia. Dei uns goles, é verdade, mas era o outro primo, o violeiro, quem mais se empolgava.

Não muito depois, duas garotas e um rapaz se aproximaram vindos sabe-se lá de onde. Ele tocava uma flauta de chifre – foi o que imaginei – e carregava frutas em um embornal surrado. As moças só dançavam, flutuavam em sorrisos silenciosos. Foram se achegando, talvez tenham se sentado. Em minutos quem nos visse juraria que amigos de infância celebravam. Nem o céu, nem a praia, nem a roda de cantoria se fechava àquela noite; em todos nós o fogo rebrilhava.

De início eu não lhes havia dado muita atenção, perdido como estava pelo firmamento. Mas uma acha estalou e atirou uma centelha bem no meio do meu peito. O ligeiro susto baixou-me à praia o olhar, que foi pousar na dançarina bem à minha frente e à da fogueira. Não atentei de imediato; mas de repente as estrelas, há pouco tão encantadoras, foram ganhando a importância de cenário. Como se o calmo rio de brilhantes antes tão acolhedor me viesse despedindo naquele porto tão mais aprazível sem que eu desse pelo fim da viagem. Remirei-a demorado: dançava em chamas, mais que entre elas. A canga acinturada; o branco sutiã que escondendo revelava; o sorriso contentado a emoldurar madeixas loiras que escapavam à discreta coroa de flores; as mãos rodopiantes; as finas tornozeleiras de búzios realçando o delicado dos pés ágeis: toda ela me acendia estrelas; o fogo, a dança, as ondas, a música, a bebida, tudo em mim ebulia. O vulcão do mundo rebentava. O primo notou:

– Toque você agora! – e atirou-me o violão.

– Mas eu não sei… – respondi depois do susto.

– Relaxe, tente. A gente acompanha.

Tomei o instrumento como o último dos energúmenos. Mal podia segurá-lo, mas encarei-a ainda outra vez e pisquei lento: só a nós vi no vermelho das chamas dos meus olhos. Explodi: com a miragem ondeante à frente, dedilhei as cordas sem me preocupar e entoei o soneto famoso que virou canção:

Meu amor tão ardente, tão remanso,

tanta onda que embala e despenteia,

capitulo sem força nem ameia,

vivo em paz no teu peito, meu descanso.

Quando me calei, os primos já roncavam bêbados, o rapaz da flauta e a outra moça haviam sumido, e a bela dançarina, agora sentada diante do fogo, apenas abanava a cabeça de olhos baixos, fingindo não sorrir. As labaredas refletiam-se nas lágrimas, riachinhos que rolavam-lhe de leve pelas faces. Larguei o violão, trêmulo ainda como dantes, e quedei-me a admirá-la arregalado: deusamada! Ela então ergueu lentamente a cabeça, olhou-me demorado sem receio, deixou que o sorriso emergisse por inteiro, alçou-se e volteando com ainda mais delicadeza, pôs-se a caminhar para o mar. Segui e alcancei-a à linha d’água. Então ela se voltou, tomou-me as mãos nas suas tão suaves, e me embalou a dançar. Aposta alta, mas eu vinha me desencobrindo. Como não sabia bem que fizesse, rasgado entre o desejo e o encantamento, apontei as ondas:

– Veja: a estrada de prata da lua. Tão belas!

Ela nada respondeu; sorriluzia. Arrastou-me pela voz, mansussurrando:

– Vem…

Deitamos ambos olhos, sem que eu disfarçasse a veneração, não sei se mais entregue ou abobado. Desfazia-me entre nossas lágrimas. Aos poucos as mãos se rendiam ao coração e emolduravam cada sonho entre carinhos. Aspirei-lhe os cabelos; tão macios!

– Por que o choro? Tão bela… Não entendo…

Calou-me em um beijo voraz; a água morna, a areia fofa e o dossel cravejado eram nosso tálamo; escancarados no centro do universo, éramos dança. Em cada afago a lua desandava descarada: vivemos, eu descobria e esvoaçava! Florescemos, nascemo-nos um noutro, e a carne se fez cosmo!

Ainda pendente das estrelas, despertou-me um segundo “vem!”, e eu a vi mergulhar na escuridão. Mal me ergui, imitei-a e emergi ansioso por tê-la outra vez nos braços. Olhei em volta, a lua cheia a pino ajudava. E veio o vento. Não a vi nem ouvi. Tateei a água, esfreguei os olhos, espiei a praia: nada. Chamei, e ela não vinha. Gritei, debati-me em todas as direções. Voltei à fogueira, já meras brasas. Acordei meus primos, implorei ajuda. Mal paravam em pé. Berrei desesperado em frente ao mar, corri a orla toda indo e vindo. Nada. Continuei correndo, mergulhando e gritando até à aurora, que rompia com cabelos loiros dela; o sol despontou, caí de joelhos em pranto e adorei a face amada.

Avisei polícia e bombeiros. Fizeram buscas: sempre nada. Ninguém na ilha conhecia nenhum dos três, muito menos a menina de quem eu pintava tão viva descrição. Chamaram-me de bêbado e louco, evocaram lendas da ilha. Para evitar complicações, os primos compraram a história e tentaram várias vezes me fazer confessar a “brincadeira”. Quis matá-los; voltamos a trocar cumprimentos só há muito pouco tempo. Nunca mais se falou da moça, da minha moça, da chama da minha noite. Ali fiquei, ali estou: o que voltou foi a sombra.

Aprendi a mergulhar; retornei várias vezes a Ilhabela. Entrevistei quem pude dos nativos, fui a todos os cartórios, prefeituras, sacristias da região: sempre nada. Espalhei retratos falados; até a adivinhos apelei. Trouxe meus filhos a Castelhanos, mergulhamos diversas vezes; já estão fartos. Não desisto. E nada, nada, sempre busco e sempre nada! Demodeus invejoso: nada! Tenho certeza de tudo, o universo por testemunha: e nada!

Ainda ontem sentei-me outra vez à sacada ao fim do dia. Dali admiro o sol poente até sucumbir ao concreto dalgum maldito prédio. Não chorei, não mais revivo. Compreendi que não é o caso: nunca o morri. Só fecho os olhos e suspiro, remiro o sorriso, as doces lágrimas, ressinto o perfume no beijo demorado. Noite sem estrelas nem dança nem vento. Retorno devagar: estou velho. Amei muitas mulheres que me pediam “não se esqueça de mim”, e delas mal me lembro uns poucos mesmos traços. Gastei a vida na ânsia de agarrar o tempo e retorcê-lo; é sempre à visão do fogo que me rendo. E jamais soube-lhe sequer o nome: vejo-a Marina.

CANTIGAS DE RODA

QUANTA COISA BOA O MUNDO “GOBALIZADO” TEM ROUBADO DE NÓS….

Amarelo da cor do bicho-papão

Sinto uma saudade doída de ver menino na Rua brincando de pipa;

Pulando amarelinha, até chegar ao céu;

Mãos dadas, vozes estridentes, bailando sorridentes as melodias feitas prá sonhar.

Tô triste, quase sem esperança de ver tanta criança “de rua”;

De cidadania, nua;

Sem direito de brincar.

Dirá sonhar!

Cantigas de Roda são um tipo de canção popular, que está diretamente relacionada com a brincadeira de roda. A prática é comum em todo o Brasil e faz parte do folclore brasileiro. Consiste em formar um grupo com várias crianças, dar as mãos e cantar uma música com características próprias, como melodia e ritmo equivalentes à cultura local, letras de fácil compreensão, temas referentes à realidade da criança ou ao seu universo imaginário e geralmente com coreografias.

cantigas-de-rodaElas também podem ser chamadas de cirandas, e têm caráter folclórico. Esta prática, hoje em dia não tão presente na realidade infantil como antigamente devido às tecnologias existentes, é geralmente usada para entretenimento de crianças de todas as idades em locais como colégios, creches, parques, etc.

Há algumas características que elas têm em comum, como por exemplo a letra. Além de ser uma letra simples de memorizar, é recheada de rimas, repetições e trocadilhos, o que faz da música uma brincadeira. Muitas vezes fala da vida dos animais, usando episódios fictícios, que comparam a realidade humana com a realidade daquela espécie, fazendo com que a atenção da criança fique presa à história contada pela música, o que estimula sua imaginação e memória. São os casos das músicas “A barata diz que tem”, “Peixe vivo” e “Sapo Jururu”.

Em outros casos, algum objeto cria vida, ou fala-se de amor que para as crianças é representado principalmente pelo casamento, já que o exemplo mais próximo delas é o dos pais. Há ainda as que retratam alguma história engraçada, divertida para as crianças. Contudo, não podemos deixar de destacar as cantigas que falam de violência ou de medo. Apesar de esse ser um tema da realidade da criança, em algumas cantigas ele parece ser um estímulo à violência ou ao medo. Atualmente algumas canções vêm sendo alteradas por pessoas mais preocupadas com a influência das músicas na mente infantil.

Não há como detectar o momento em que as cantigas de roda, já que além de terem autoria anônima, são continuamente modificadas, adaptando-se à realidade do grupo de pessoas que as canta. São também criadas novas cantigas naturalmente em qualquer grupo social.

De acordo com Cascudo (1988), autor que se destaca pelo seu brilhante estudo e grande empenho a respeito do assunto, as cantigas de roda tem um caráter constante. “(…) apesar de serem cantadas uma dentro das outras e com as mais curiosas deformações das letras, pela própria inconsciência com que são proferidas pelas bocas infantis.” (ibid., p 676 ) Elas são transmitidas oralmente abandonadas em cada geração e reerguidas pela outra “numa sucessão ininterrupta de movimento e de canto quase independente da decisão pessoal ou do arbítrio administrativo.” (ibid., p. 146 )

Como podemos confirmar é de acordo com a sua utilização pelas crianças que a cantiga vai se tornando popular. As cantigas hoje conhecidas no Brasil têm origem européia, mais especificamente de Portugal e Espanha. Não é notável, porém, esta origem, pois as mesmas já se adaptaram tanto ao folclore brasileiro que são o retrato do país.

As cantigas de roda são de extrema importância para a cultura de um local. Através dela dá-se a conhecer costumes, cotidiano das pessoas, festas típicas do local, comidas, brincadeiras, paisagem, flora, fauna, crenças, dentre muitas outras coisas. O folclore de determinado local vai sendo construído aos poucos através não só de cantigas de roda, mas também de histórias populares contadas oralmente, cantigas de ninar, lendas, etc.

“O folclore inclui nos objetos e fórmulas uma quarta dimensão sensível ao seu ambiente” (Câmara Cascudo)

Veja a letra de algumas das cantigas de roda mais executadas no Brasil. Mais cantigas podem ser encontradas no site ABCKids: http://www.abckids.com.br/cantigas.php

Marcha Soldado

Marcha Soldado
Cabeça de Papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel

O quartel pegou fogo
A polícia deu sinal
Acuda acuda acuda
A bandeira nacional

Samba Lelê

Samba Lelê está doente
Está com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
De umas dezoito lambadas

Samba , samba, Samba ô Lelê
Pisa na barra da saia ô Lalá (BIS)

O Cravo e a Rosa

O Cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O Cravo ficou ferido
E a Rosa despedaçada

O Cravo ficou doente
A Rosa foi visitar
O Cravo teve um 
desmaio
A Rosa pos-se a chorar

Ciranda Cirandinha

Ciranda Cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar

O Anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou

Nesta Rua

Nesta rua, nesta rua, tem um bosque
Que se chama, que se chama, Solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração

Se eu roubei, se eu roubei seu coração
É porque tu roubastes o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque eu te quero tanto bem

Se esta rua se esta rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para o meu, para o meu amor passar

Atirei o Páu no Gato

Atirei o páu no gato tô tô
Mas o gato tô tô
Não morreu reu reu
Dona Chica cá
Admirou-se se
Do berro, do berro que o gato deu
Miau !!!!!!

Fui no Tororó

Fui no Tororó beber água não achei
Achei linda Morena
Que no Tororó deixei
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada

Oh ! Dona Maria,
Oh ! Mariazinha, entra nesta roda
Ou ficarás sozinha !

Sozinha eu não fico
Nem hei de ficar !
Por que eu tenho o Pedro
Para ser o meu par !

Pézinho

Ai bota aqui
Ai bota aqui o seu pézinho
Seu pézinho bem juntinho com o meu (BIS)

E depois não va dizer
Que você se arrependeu ! (BIS)

Terezinha de Jesus

Terezinha de Jesus deu uma queda
Foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão

O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão

Terezinha levantou-se
Levantou-se lá do chão
E sorrindo disse ao noivo
Eu te dou meu coração

Dá laranja quero um gomo
Do limão quero um pedaço
Da morena mais bonita
Quero um beijo e um abraço

Peixe Vivo

Como pode o peixo vivo
Viver fora da água fria
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria

Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia

Os pastores desta aldeia
Ja me fazem zombaria
Os pastores desta aldeia
Ja me fazem zombaria

Por me verem assim chorando
Por me verem assim chorando
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia

Sapo Jururu

Sapo Jururu na beira do rio
Quando o sapo grita, ó Maninha, diz que está com frio
A mulher do sapo, é quem está la dentro
Fazendo rendinha, ó Maninha, pro seu casamento

São João Da Ra Rão

São João Da Ra Rão
Tem uma gaita-ra-rai-ta
Que quando toca-ra-roca
Bate nela
Todos os anja-ra-ran-jos
Tocam gaita-ra-rai-ta
Tocam tanta-ra-ran-to
Aqui na terra

Maria tu vais ao baile, tu “leva” o xale
Que vai chover
E depois de madrugada, toda molhada
Tu vais morrer

Maria tu vais “casares”, eu vou te “dares”
Eu vou te “dares” os parabéns
Vou te “dares” uma prenda
Saia de renda e dois vinténs

Escravos de Jó

Escravos de Jó jogavam caxangá
Tira, bota deixa o Zé Pereira ficar
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za (bis)

A Barata diz que tem

A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !

A Barata diz que tem um sapato de veludo
É mentira da barata, o pé dela é peludo
Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !

A Barata diz que tem uma cama de marfim
É mentira da barata, ela tem é de capim
Ah ra ra, rim rim rim, ela tem é de capim

A Barata diz que tem um anel de formatura
É mentira da barata, ela tem é casca dura
Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura

A Barata diz que tem o cabelo cacheado
É mentira da barata, ela tem coco raspado
Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado

Ilustração: http://www.gerivaldoneiva.com/2010/09/cantigas-de-roda-em-confronto-com.html

 

Borboletas

 

 

download (11)


BORBOLETAS

Quando depositamos muita confiança ou expectativas em uma pessoa, o risco de
se decepcionar é grande.

As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, assim como não estamos aqui, para satisfazer as dela.

Temos que nos bastar… nos bastar sempre e quando procuramos estar com alguém, temos que nos conscientizar de que estamos juntos porque gostamos, porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém.

As pessoas não se precisam, elas se completam… não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com a outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher de sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você, e principalmente a gostar de quem gosta de você.

O segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas, você vai achar
não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

Mario Quintana

Espelho

DE MIM PRÁ VOCÊ

                                                                  (Crônica de uma vida)                                                                                images (3)

Alguém me roubou de mim,  pensou em sobressalto!
Onde foi parar o olhar de toda vida…. as  bochechas vermelhas de como lhes houvessem apertado… as covinhas dos lados, o castanho dos cabelos emaranhados. Definitivamente, onde estava o sorriso de toda a boca… e a pergunta  não abria mão de se fazer: quem é você? Foram tantas as  respostas…
Todas entrecortadas, confusas, misturadas.
O reflexo parecia incomodado.
A luz se fez menor.
Amiga das brincadeiras de esconde-esconde, não iria, a essa altura, mostrar as evidências.
E os retalhos da vida irrompem  em sua mente como a luz de um farol que apaga e acende.
O “Leão da Warner”, majestoso,  apareceu lá no fundo com o conhecido e ainda  emocionante rugido.
Ouve-se o barulho dos corpos se retesando nas velhas poltronas de braços com buraquinho do lado pra enfiar os chicletes mastigados.
No telão,  um rapaz magrinho, olhos azuis estonteantes, casaco de couro preto e um grande topete gomalinado,  dançando como quem vivia todos os Embalos de Sábado à Noite.
Passos absolutamente  performáticos!
Sua “partner”, uma mignonzinha de crespos cabelos dourados e lindas pernas torneadas – sonho dela e de qualquer daquelas meninas de olhos arregalados, marejados,  que lotava o local.
Tempos de ditadura;
Governo militar.
E o Zé Ramalho entoa:
“Eh, ô, ô,  vida de gado. Povo marcado, eh. Povo feliz!”
POVO FELIZ!
Universidade Pública;
Vejam, só!
Sentindo o coração e o canudo nas mãos, levanta-o, como a um troféu.
Sente um misto de tristeza e alegria.
Borram a maquiagem lágrimas travestidas.
São caminhos que se traçam e desentrelaçam.
Adeus aos protestos;
Não mais à comida fermentada do Campus.
As vidas ali vividas,  inexoravelmente,  buscam os seus atalhos.
Daí, o casamento;
Suposta união.
Um bebê chora;
Mãos sonolentas preparam a mamadeira.
Num   trinta  e um de dezembro, vejo a despedida do ano que vai e de uma vida a dois que se foi;
Incompatibilidade  dos gênios.
Baixam-se as guardas das mais profundas emoções;
Então o tempo se faz de guerra;
Não há paz no coração que anda ávido do rebuliço das paixões de céu e  inferno.
Opera-se, então, o milagre da criação.
Os pés,  já não os consegue ver;
Culpa do barrigão outonal.
Na mão uma tesourinha: que inutilidade!
Na sala de parto,
Um grande foco de luz
Como aquele do dançarino – tam, tam, tam ,tam!
Inesperadamente, o som de um  radinho no canto da sala;
Djavan, em sua sabedoria, determina:  “…o amor é um grande laço”.
AMOR, LAÇO – palavras que dizem muito;
Sentimentos escassos.
Ouve-se o manejar dos metais;
Talvez o bisturi!
Inacreditavelmente, o choro.
Choro forte, como frágil o serzinho que o produzia.
Tempos de esperança e temperança,
Que passam depressa.
Num sobressalto, a vida gira o relógio das emoções;
Vêem-se lindas rosas:  brancas, amarelas, vermelhas…
Ouve-se a terra jogada na madeira…  barulho único, inexplicável,
Absolutamente singular e inesquecível.
As  Lágrimas escorrem, molham o chão.
Adubam a semente da flor de pai.
O tempo não pára!
O contexto mostra-se invivível.
Os fleches do passado a olham punemente;
O dedo da culpa aponta, sem piedade.
Ela acredita que entendeu.
Um, dois, três, quatro, sete,dez;
Só mais um.
Outro gole d’água.
O vapor do chuveiro nubla o espelho como a anunciar uma grande tempestade.
Mãos que seguram pequenos granizos brancos, cor-de-rosa, bicolores…
Até parecem brinquedos de brincar;
Pequenas e cintilantes bolas de gude.
Produz uma estranha magia o brinquedo de brincar;
Faz o tempo parar!
Paralisa a voz.
As mãos não param de tremer.
Mas, por quê?
As pernas faltam;
Não há  sintonia na fisiologia.
Uma, duas, três. Incontáveis gotas caem do tubo de soro;
Gotas de água que drenam a pia do banheiro.
Resta regurgitar, verbo intransitivo.
Cazuza tinha razão:
O tempo não pára.
A chuva anuncia seus últimos pingos d’água.
As folhas dançam a dança dos orvalhos.
O homem de jaleco branco bate o martelo.
Corre solta e confusa a  imaginação.
De novo, o grande foco de luz.
Um verdadeiro caleidoscópio.
Cores e mais cores…. e um lindo sapato vermelho numa prateleira de loja.
Compra pra mim….
Uma, duas, três vezes… Não acha que já chega?
Exorta a voz trêmula que lhe segura a mão.
As lembranças vão e vêm.
No palco de um estranho teatro, alguém diz:
“Mãe, a dor dói”. Sim, mãe, a dor dói.
Apagam-se as luzes,
O silêncio se faz respeitar.
Aos poucos, a consciência.
Pijama de coraçõezinhos pintados.
Enfim, esmaecem as lembranças amareladas;
O espelho se quebrou.
Acabaram-se as brincadeiras de esconder.
Claros se fazem os sulcos na testa e até o bigode chinês.
Uma pintura do perfeito pintor.
Tinta cor de vida.
Tum, tum, tum, Tum!
Barulho de passos determinados.
Conscientemente distraída,  ela dirige rumo ao trabalho.
No rádio, a emissora da Assembléia anuncia meia hora de pagodes e sambas
“…e o meu medo maior é o espelho se quebrar;
E o meu medo maior é o espelho se quebrar…”.
Ah, João Nogueira!

(por Rosânia Bastos)