BORBOLETA NO ESCURO

Amigos caminheiros,

Porque estou com problemas de visão, talvez passemos uns dias, meses, sem comunicação.

Mas eu volto!

Beijo a todos

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MACHADO DE ASSIS

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Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira do abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto arealum vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto,
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida;
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.

Machado de Assis

Pequena Biografia – Wikipédia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Machado_de_Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi umescritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.2 3 4 5 6 Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário.7 8Testemunhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época.9

Nascido no Morro do LivramentoRio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade.10 Os biógrafos notam que, interessado pela boemia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual.11 Para isso, assumiu diversos cargos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras.12

Sua extensa obra constitui-se de nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas.13 14 Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação deMemórias Póstumas de Brás Cubas (1881).15 16 Este romance é posto ao lado de todas suas produções posteriores, Quincas BorbaDom CasmurroEsaú e Jacó e Memorial de Aires, ortodoxamente conhecidas como pertencentes a sua segunda fase, em que se notam traços de pessimismo e ironia, embora não haja rompimento de resíduos românticos. Dessa fase, os críticos destacam que suas melhores obras são as da Trilogia Realista.1 Sua primeira fase literária é constituída de obras comoRessurreiçãoA Mão e a LuvaHelena e Iaiá Garcia, onde notam-se características herdadas do Romantismo, ou “convencionalismo”, como prefere a crítica moderna.17

Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público.18 Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo BilacLima Barreto,Drummond de AndradeJohn BarthDonald Barthelme e outros.19 Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil,20 contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes,21 de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como DanteShakespeare e Camões.22

 

INCOMPARÁVEL!

 

 

ImagemA uma senhora que me pediu versos

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês 
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

Machado de Assis

LUZ PRÓPRIA

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Círculo Vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
– Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

– Pudesse eu copiar o transparente lume, 
que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela 
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

– Pesa-me esta brilhante aureola de nume… 
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

Machado de Assis

APENAS ELE…?

 HOMEM NA RUA

Pequeno Perfil de um Cidadão Comum

Belchior

Era um cidadão comum como esses que se vê na rua
Falava de negócios, ria, via show de mulher nua
Vivia o dia e não o sol, a noite e não a lua
Acordava sempre cedo (era um passarinho urbano)
Embarcava no metrô, o nosso metropolitano…
Era um homem de bons modos:
“Com licença; – Foi engano”
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que caminha para a morte pensando em vencer na vida
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que tem no fim da tarde a sensação
Da missão cumprida
Acreditava em Deus e em outras coisas invisíveis
Dizia sempre sim aos seus senhores infalíveis
Pois é; tendo dinheiro não há coisas impossíveis
Mas o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo)
Desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto
E a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto
Que a terra lhe seja leve

 http://letras.mus.br/belchior/44461/

Citando Gabriela Ruivo Trindade

Uma Outra Voz

Um completo estranho, o meu corpo. Às vezes parece-me que tenta falar comigo, mas não entendo patavina do que diz. Chego a acreditar que me roubaram o antigo corpo ou o deitei fora. Talvez o tenha despido, como quem arranca o pijama de manhã, e me tenha enfiado noutro. Usado, ainda por cima. Gasto, velho e com defeito.

O ventre é o meu pólo sul. Para lá não existe nada. Ou talvez devesse dizer: o ventre é uma espécie de fim do mundo. Uma falha geológica gigantesca que separasse uma península do continente e a lançasse, errante, no coração do oceano. Eu sou o que sobra desse continente desmembrado; o resto partiu, levado na corrente marítima, não sei para onde.

O resto. As pernas, os pés e o baixo-ventre; tudo o que fica abaixo do umbigo. Aliás, se não visse todos os dias as minhas pernas, pensaria que mas tinham…

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