Marina Ilhabela

Marina Ilhabela

De novo a voz do vento. Só depois de muitos anos vim a entender a estratégia desses ventos zombeteiros, que insistem em soprar-me aos ouvidos o nome do paraíso. A tática vencedora tem sido sempre a mais simples: me entrego longo tempo a degustá-lo na memória, saboreando tranquilo cada sílaba, como os vinhos que aprendi a apreciar sob travos de melancolia: I-lha-be-la… Suspiro fundo, sorrio; às vezes basta. Coisa dos anos, talvez. No caleidoscópio das lembranças, todo caquinho vai se mostrando furta-cor ao olho atento. Que busca a luz para entrever o mosaico dali dentro.

Donde moro não avisto o sol nascendo. É pena: há madrugadas que me arrancam das cobertas qual zelosas, porém rudes, enfermeiras. Não que as queira mal. Explico. Tranco-me na sacada e acendo o velho cachimbo. A brasinha me encanta enquanto inflama, e o abraço da fumaça não deixa de ter lá seu aconchego. A luz da cidade mata estrelas; contento-me de tê-las um tantinho mais perto. Espraio o olhar apenas, em procura dalguma ainda visível. No mais só fecho os olhos, trago fundo, aliso à ponta dos dedos a palma da mão vazia. Quando a claridade sem pudor desnuda a noite, não raro me pilho enxugando a lágrima inconformada, não satisfeita com só me alfinetar por dentro os olhos. Houve dias em que tive de agir rápido, quando todos despertavam; a fumaça também ajuda. Minha esposa – amor-emenda – tem sabido não fazer mais tanto caso. É o tempo: os caquinhos se vão lapidando. Ilhabela…

O que um adolescente caramujo poderia responder se convidado por dois primos para um fim de semana em Ilhabela? Desconversei, mas fui. Naquele abafado dezembro, acampamos na estupenda Castelhanos, que me destrambelhou a pulsação em seus azuis. Mal caiu a noite, nos vimos sem querer em um luau: acendi uma fogueira e sentei-me de frente para o mar; adoro admirá-los. Deliciava-me a dança das estrelas, mais do que cantar e beber da aguardente vagabunda que o primo oferecia. Dei uns goles, é verdade, mas era o outro primo, o violeiro, quem mais se empolgava.

Não muito depois, duas garotas e um rapaz se aproximaram vindos sabe-se lá de onde. Ele tocava uma flauta de chifre – foi o que imaginei – e carregava frutas em um embornal surrado. As moças só dançavam, flutuavam em sorrisos silenciosos. Foram se achegando, talvez tenham se sentado. Em minutos quem nos visse juraria que amigos de infância celebravam. Nem o céu, nem a praia, nem a roda de cantoria se fechava àquela noite; em todos nós o fogo rebrilhava.

De início eu não lhes havia dado muita atenção, perdido como estava pelo firmamento. Mas uma acha estalou e atirou uma centelha bem no meio do meu peito. O ligeiro susto baixou-me à praia o olhar, que foi pousar na dançarina bem à minha frente e à da fogueira. Não atentei de imediato; mas de repente as estrelas, há pouco tão encantadoras, foram ganhando a importância de cenário. Como se o calmo rio de brilhantes antes tão acolhedor me viesse despedindo naquele porto tão mais aprazível sem que eu desse pelo fim da viagem. Remirei-a demorado: dançava em chamas, mais que entre elas. A canga acinturada; o branco sutiã que escondendo revelava; o sorriso contentado a emoldurar madeixas loiras que escapavam à discreta coroa de flores; as mãos rodopiantes; as finas tornozeleiras de búzios realçando o delicado dos pés ágeis: toda ela me acendia estrelas; o fogo, a dança, as ondas, a música, a bebida, tudo em mim ebulia. O vulcão do mundo rebentava. O primo notou:

– Toque você agora! – e atirou-me o violão.

– Mas eu não sei… – respondi depois do susto.

– Relaxe, tente. A gente acompanha.

Tomei o instrumento como o último dos energúmenos. Mal podia segurá-lo, mas encarei-a ainda outra vez e pisquei lento: só a nós vi no vermelho das chamas dos meus olhos. Explodi: com a miragem ondeante à frente, dedilhei as cordas sem me preocupar e entoei o soneto famoso que virou canção:

Meu amor tão ardente, tão remanso,

tanta onda que embala e despenteia,

capitulo sem força nem ameia,

vivo em paz no teu peito, meu descanso.

Quando me calei, os primos já roncavam bêbados, o rapaz da flauta e a outra moça haviam sumido, e a bela dançarina, agora sentada diante do fogo, apenas abanava a cabeça de olhos baixos, fingindo não sorrir. As labaredas refletiam-se nas lágrimas, riachinhos que rolavam-lhe de leve pelas faces. Larguei o violão, trêmulo ainda como dantes, e quedei-me a admirá-la arregalado: deusamada! Ela então ergueu lentamente a cabeça, olhou-me demorado sem receio, deixou que o sorriso emergisse por inteiro, alçou-se e volteando com ainda mais delicadeza, pôs-se a caminhar para o mar. Segui e alcancei-a à linha d’água. Então ela se voltou, tomou-me as mãos nas suas tão suaves, e me embalou a dançar. Aposta alta, mas eu vinha me desencobrindo. Como não sabia bem que fizesse, rasgado entre o desejo e o encantamento, apontei as ondas:

– Veja: a estrada de prata da lua. Tão belas!

Ela nada respondeu; sorriluzia. Arrastou-me pela voz, mansussurrando:

– Vem…

Deitamos ambos olhos, sem que eu disfarçasse a veneração, não sei se mais entregue ou abobado. Desfazia-me entre nossas lágrimas. Aos poucos as mãos se rendiam ao coração e emolduravam cada sonho entre carinhos. Aspirei-lhe os cabelos; tão macios!

– Por que o choro? Tão bela… Não entendo…

Calou-me em um beijo voraz; a água morna, a areia fofa e o dossel cravejado eram nosso tálamo; escancarados no centro do universo, éramos dança. Em cada afago a lua desandava descarada: vivemos, eu descobria e esvoaçava! Florescemos, nascemo-nos um noutro, e a carne se fez cosmo!

Ainda pendente das estrelas, despertou-me um segundo “vem!”, e eu a vi mergulhar na escuridão. Mal me ergui, imitei-a e emergi ansioso por tê-la outra vez nos braços. Olhei em volta, a lua cheia a pino ajudava. E veio o vento. Não a vi nem ouvi. Tateei a água, esfreguei os olhos, espiei a praia: nada. Chamei, e ela não vinha. Gritei, debati-me em todas as direções. Voltei à fogueira, já meras brasas. Acordei meus primos, implorei ajuda. Mal paravam em pé. Berrei desesperado em frente ao mar, corri a orla toda indo e vindo. Nada. Continuei correndo, mergulhando e gritando até à aurora, que rompia com cabelos loiros dela; o sol despontou, caí de joelhos em pranto e adorei a face amada.

Avisei polícia e bombeiros. Fizeram buscas: sempre nada. Ninguém na ilha conhecia nenhum dos três, muito menos a menina de quem eu pintava tão viva descrição. Chamaram-me de bêbado e louco, evocaram lendas da ilha. Para evitar complicações, os primos compraram a história e tentaram várias vezes me fazer confessar a “brincadeira”. Quis matá-los; voltamos a trocar cumprimentos só há muito pouco tempo. Nunca mais se falou da moça, da minha moça, da chama da minha noite. Ali fiquei, ali estou: o que voltou foi a sombra.

Aprendi a mergulhar; retornei várias vezes a Ilhabela. Entrevistei quem pude dos nativos, fui a todos os cartórios, prefeituras, sacristias da região: sempre nada. Espalhei retratos falados; até a adivinhos apelei. Trouxe meus filhos a Castelhanos, mergulhamos diversas vezes; já estão fartos. Não desisto. E nada, nada, sempre busco e sempre nada! Demodeus invejoso: nada! Tenho certeza de tudo, o universo por testemunha: e nada!

Ainda ontem sentei-me outra vez à sacada ao fim do dia. Dali admiro o sol poente até sucumbir ao concreto dalgum maldito prédio. Não chorei, não mais revivo. Compreendi que não é o caso: nunca o morri. Só fecho os olhos e suspiro, remiro o sorriso, as doces lágrimas, ressinto o perfume no beijo demorado. Noite sem estrelas nem dança nem vento. Retorno devagar: estou velho. Amei muitas mulheres que me pediam “não se esqueça de mim”, e delas mal me lembro uns poucos mesmos traços. Gastei a vida na ânsia de agarrar o tempo e retorcê-lo; é sempre à visão do fogo que me rendo. E jamais soube-lhe sequer o nome: vejo-a Marina.

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4 pensamentos sobre “Marina Ilhabela

  1. “De novo a voz do vento. Só depois de muitos anos vim a entender a estratégia desses ventos zombeteiros, que insistem em soprar-me aos ouvidos o nome do paraíso….” É preciso sorver a goles miúdos, líquido tão precioso.

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