Espelho

DE MIM PRÁ VOCÊ

                                                                  (Crônica de uma vida)                                                                                images (3)

Alguém me roubou de mim,  pensou em sobressalto!
Onde foi parar o olhar de toda vida…. as  bochechas vermelhas de como lhes houvessem apertado… as covinhas dos lados, o castanho dos cabelos emaranhados. Definitivamente, onde estava o sorriso de toda a boca… e a pergunta  não abria mão de se fazer: quem é você? Foram tantas as  respostas…
Todas entrecortadas, confusas, misturadas.
O reflexo parecia incomodado.
A luz se fez menor.
Amiga das brincadeiras de esconde-esconde, não iria, a essa altura, mostrar as evidências.
E os retalhos da vida irrompem  em sua mente como a luz de um farol que apaga e acende.
O “Leão da Warner”, majestoso,  apareceu lá no fundo com o conhecido e ainda  emocionante rugido.
Ouve-se o barulho dos corpos se retesando nas velhas poltronas de braços com buraquinho do lado pra enfiar os chicletes mastigados.
No telão,  um rapaz magrinho, olhos azuis estonteantes, casaco de couro preto e um grande topete gomalinado,  dançando como quem vivia todos os Embalos de Sábado à Noite.
Passos absolutamente  performáticos!
Sua “partner”, uma mignonzinha de crespos cabelos dourados e lindas pernas torneadas – sonho dela e de qualquer daquelas meninas de olhos arregalados, marejados,  que lotava o local.
Tempos de ditadura;
Governo militar.
E o Zé Ramalho entoa:
“Eh, ô, ô,  vida de gado. Povo marcado, eh. Povo feliz!”
POVO FELIZ!
Universidade Pública;
Vejam, só!
Sentindo o coração e o canudo nas mãos, levanta-o, como a um troféu.
Sente um misto de tristeza e alegria.
Borram a maquiagem lágrimas travestidas.
São caminhos que se traçam e desentrelaçam.
Adeus aos protestos;
Não mais à comida fermentada do Campus.
As vidas ali vividas,  inexoravelmente,  buscam os seus atalhos.
Daí, o casamento;
Suposta união.
Um bebê chora;
Mãos sonolentas preparam a mamadeira.
Num   trinta  e um de dezembro, vejo a despedida do ano que vai e de uma vida a dois que se foi;
Incompatibilidade  dos gênios.
Baixam-se as guardas das mais profundas emoções;
Então o tempo se faz de guerra;
Não há paz no coração que anda ávido do rebuliço das paixões de céu e  inferno.
Opera-se, então, o milagre da criação.
Os pés,  já não os consegue ver;
Culpa do barrigão outonal.
Na mão uma tesourinha: que inutilidade!
Na sala de parto,
Um grande foco de luz
Como aquele do dançarino – tam, tam, tam ,tam!
Inesperadamente, o som de um  radinho no canto da sala;
Djavan, em sua sabedoria, determina:  “…o amor é um grande laço”.
AMOR, LAÇO – palavras que dizem muito;
Sentimentos escassos.
Ouve-se o manejar dos metais;
Talvez o bisturi!
Inacreditavelmente, o choro.
Choro forte, como frágil o serzinho que o produzia.
Tempos de esperança e temperança,
Que passam depressa.
Num sobressalto, a vida gira o relógio das emoções;
Vêem-se lindas rosas:  brancas, amarelas, vermelhas…
Ouve-se a terra jogada na madeira…  barulho único, inexplicável,
Absolutamente singular e inesquecível.
As  Lágrimas escorrem, molham o chão.
Adubam a semente da flor de pai.
O tempo não pára!
O contexto mostra-se invivível.
Os fleches do passado a olham punemente;
O dedo da culpa aponta, sem piedade.
Ela acredita que entendeu.
Um, dois, três, quatro, sete,dez;
Só mais um.
Outro gole d’água.
O vapor do chuveiro nubla o espelho como a anunciar uma grande tempestade.
Mãos que seguram pequenos granizos brancos, cor-de-rosa, bicolores…
Até parecem brinquedos de brincar;
Pequenas e cintilantes bolas de gude.
Produz uma estranha magia o brinquedo de brincar;
Faz o tempo parar!
Paralisa a voz.
As mãos não param de tremer.
Mas, por quê?
As pernas faltam;
Não há  sintonia na fisiologia.
Uma, duas, três. Incontáveis gotas caem do tubo de soro;
Gotas de água que drenam a pia do banheiro.
Resta regurgitar, verbo intransitivo.
Cazuza tinha razão:
O tempo não pára.
A chuva anuncia seus últimos pingos d’água.
As folhas dançam a dança dos orvalhos.
O homem de jaleco branco bate o martelo.
Corre solta e confusa a  imaginação.
De novo, o grande foco de luz.
Um verdadeiro caleidoscópio.
Cores e mais cores…. e um lindo sapato vermelho numa prateleira de loja.
Compra pra mim….
Uma, duas, três vezes… Não acha que já chega?
Exorta a voz trêmula que lhe segura a mão.
As lembranças vão e vêm.
No palco de um estranho teatro, alguém diz:
“Mãe, a dor dói”. Sim, mãe, a dor dói.
Apagam-se as luzes,
O silêncio se faz respeitar.
Aos poucos, a consciência.
Pijama de coraçõezinhos pintados.
Enfim, esmaecem as lembranças amareladas;
O espelho se quebrou.
Acabaram-se as brincadeiras de esconder.
Claros se fazem os sulcos na testa e até o bigode chinês.
Uma pintura do perfeito pintor.
Tinta cor de vida.
Tum, tum, tum, Tum!
Barulho de passos determinados.
Conscientemente distraída,  ela dirige rumo ao trabalho.
No rádio, a emissora da Assembléia anuncia meia hora de pagodes e sambas
“…e o meu medo maior é o espelho se quebrar;
E o meu medo maior é o espelho se quebrar…”.
Ah, João Nogueira!

(por Rosânia Bastos)

 

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